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Dois mil e outros...

Desde sempre o ser humano é dado e necessita de rituais de passagem. O réveillon (aliás, que nomezinho complicado que parece ter sido inventado para sofisticar uma simples mudança de calendário) é um desses ritos. Chora-se. Perdoa-se. Arrepende-se. As vezes até sinceramente. Na maioria das vezes só pra cumprir o ritual. Mas o que é fato é que a chegada de um ano novo representa no imaginário coletivo uma nova chance, uma outra oportunidade para concertar coisas, “arrumar a casa”, refazer caminhos. Infelizmente (?) isso é ilusão. Cada instante é único e não dá pra retroceder no relógio da vida. As merdas estão feitas. Os erros consolidados. Os acertos futuros é que serão os possíveis consertos destes impensados, ou pensados, equívocos que cometemos durante o ano velho, que era novo quando por ele passávamos. Costumo pensar que neste ritual de passagem, tudo gira em torno do que poderia ter sido. Dizemos assim, por exemplo:  - Ah! Vou parar com isso... Vou voltar para aquilo (e/a)... Vou deixar de isso... Todas considerações baseadas no que fizemos no chamado ano velho.  Em alguns casos erramos duplamente, por desconsiderar a importância do que se viveu e por achar que já sabemos tudo o que nos virá. Ritos de passagem marcam transições. Passagens, como o próprio conceito antropológico diz, então, que tal separar o conceito da realidade, esta sim, juntamente com o tempo, fator de determinação na vida? Para os chineses, o ano novo começa em fevereiro. Para os judeus não sei quando, mas é diferente. Para tantos outros seres humanos, penso que deve haver diferenças “calendariais”, então, troquemos os brilhos dos fogos pelo espocar das luzes que nos despertam quando abrimos os olhos, relutantes as vezes, todas as manhãs, não apenas na do dia 01 de janeiro.  Passemos a rever e a repensar nosso atos passados e presentes cotidianamente, promovendo assim uma mudança de atitude. Para o futuro, desde já. Isso sim é uma transição. Mudanças de atitudes possibilitam transformações. E isso é interno, independem de calendário, ritos, histerias coletivas, roupas brancas, etc, etc, etc.

Que possamos começar cada dia com uma nova comemoração ao novo. Ao novo eu. Ao novo você. Ao novo. Felizes  Anos Novos! Feliz 2000 e outros.

 

Foto: Diane Arbus.



Escrito por Du às 11h05
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É isso aííííí...

Meu movimento emocional é defasado mesmo. Sofro posteriormente à dor.

Minhas lágrimas escorrem depois do choro, como uma tempestade pelo avesso: primeiro o trovão, depois o relâmpago.

Isso é um complicador. Pois sempre sou pego de surpresa, por mim mesmo. Justo eu que cobro tanto o fator surpresa como elemento mantenedor das emoções.

Parece meio egoísta, acho. Para não me cansar do ‘perfeito’  promovo minhas próprias surpresas, quando deveria vir do outro.

É um esforço muito grande mover a mola da emoção principalmente se dela nos encarregamos exclusivamente. Um esforço duplo.

Sinto-me cansado. Cansado mim. Das minhas coisas. Das coisas que invento. Das que são reais. Sinto-me preso a necessidades que não me satisfazem mais, que não me respondem nada.

Por que descobrimos a falta depois da perda? Por que a perda depois do ganho? E se é ganho, por que perdemos?

Fico como um eremita desequilibrado a gritar o próprio nome na entrada de uma gruta acreditando que o eco é a resposta, enganando-se. Procurando por ele mesmo dentro dos outros.

A verdade está lá fora. Fora de controle? Fora da ordem? Fora de si? Fora daqui!

Desconfio que estou me encaminhando para a descoberta da relatividade da perfeição. O momento em que se percebe que o que é bom não é efetivamente o bastante, no sentido de ser suficiente.  Me afasto até do discurso comum de que nada é perfeito porque sempre há o encoberto, tipo nas famílias rodrigueanas,  não é isso, é perfeito, é bom, mas não basta. Não sustenta. Não supera.

E estou com medo de reconhecer a imperfeição como necessária neste momento.

Por que só o “amor” não é suficiente?

Porque, enquanto produto de muitas forças, não é auto-suficiente. É dependente. Depende de outras forças, ou sentimentos, para se configurar. E estas forças dependem também de outras. Quando há. Quando faltam fica o vácuo.

E o eco da voz do eremita desequilibrado, meio Munch, a ecoar pela sala, pelo quarto, pelas ruas, pelo peito. Pela vida à fora.

 



Escrito por Du às 10h56
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Algumas canções forçam o peito a doer, a cabeça a girar em parafuso retrocesso, à direções que nem sei para onde conduzem. Mas temo que seja algum lugar obscuro e secreto que de mim mesmo esteja guardando. Algo assim como o que provocava o som da flauta de Hammelin (nem sei se é assim que se escreve), da fábula, nos ratinhos, que se entregavam e o seguiam sem questionamentos. Sou homem de questionamentos, por isso, ser solapado da suposta razão que auto-proclamo me desarma. Mas a música e a letra, as vezes acho que inconscientemente entendo a letra antes de lê-la, mobilizam meus "guardados" e me jogam na cara toda a fragilidade do homem que sou. Nestas horas chego a preferir ser rato. Em Hammelin. Esta aí em baixo é uma das canções/poemas que me atiram pra fora do jogo, chama-se Flor do Medo e o responsável é o sr. Djavan.

Venha me beijar de uma vez
Você pensa demais
Pra decidir
Venha a mim de corpo e alma
Libera e deixa o que for
Nos unir
Não vá fugir mais uma vez
Vença a falta de ar
Que a flor do medo traz
Tente pensar
Pode até ser mau e tal
Mas pode até ser
Que seja demais
Tudo vai mudar
Posso pressentir
Você vai lembrar e rir
Alguma dor
Que não vai matar ninguém
Pode ser vista e nos rondar
Não precisa se assustar
Isso é clamor
De amor
Venha me beijar de uma vez
Feito nuvem no ar
Sem aflição
Venha a mim de corpo e alma
Libera a paz do meu coração
Não vá se perder outra vez
Nesse mesmo lugar
Por onde já passou
Tente pensar
Pode até ser sonho e tal
Mas pode até ser
Que seja o amor

Até.



Escrito por Du às 08h53
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Venta. Uma brisa morna me atinge em cheio o rosto enquanto eu, debruçado na sacada, espero o domingo  de sol fugir, exausto de tanto brilhar.

Foi apenas mais um dia daqueles que encerra ou inicia a semana, nunca soube, de um azul intermitente, de igual calor, de idêntico tédio. Nos domingos fico propenso ao tédio. Ao cansaço, ao drama... E acho que já me acostumei. Na verdade acho que nunca soube muito bem como terminar percursos, isso no caso do domingo ser o último dia da semana. Nem como dar início trajetórias, caso o domingo venha a ser o primeiro da semana. Por isso, acredito, o domingos são tão perturbadores para mim. Indefinidos, indecisos, incertos.

Já gastei muitos domingos fugindo deles. Na cama, de ressaca, deprimido, tonto. Hoje perdi um pouco do medo e resisto. Prefiro vê-lo se esvair por entre os contornos das construções e nuvens até sumir, a fugir. Na realidade é praticamente uma luta contra uma força maior que me move em direções que rejeito. Passei da fase do medo, da depressão, do descontrole, já nem pega bem aos 40 e poucos evitar o inevitável.  Os domingos são conseqüências e sempre serão. Conseqüências de outros dias, outros acontecimentos, este também, enquanto passados, inevitáveis. Não dá para lamentar o que passou, nem para resistir ao que virá. Vivemos num círculo que transforma o cotidiano numa espécie de roda gigante. Lá de cima, depois de rodarmos, temos uma visão maior do todo. E, lá em baixo, só sabemos que iremos subir. E girar e girar e girar. E voltar, por vezes, ao ponto de partida. Mas é o retorno de uma pessoa diferente da que subiu e girou. Com uma visão diferente tanto das baixas quanto do todo. Pensando assim fica até um pouco triste dar adeus ao domingo azul do jeito que estava. Mas fica mais fácil esperar pela segunda e pelos outros que seguirão. Fica mais fácil acreditar que enquanto a roda da vida gira, giramos com ela. E isso é no mínimo divertido.

Até.

 



Escrito por Du às 19h54
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Meu dilema continua sendo o tempo. Se por vezes penso que somos parceiros, por outras me desespero com sua descontrolada corrida, sempre em direção oposta a que estou. Poxa! Logo eu que defendo suas forças e concedo-lhe gratidão, sou vitimado por essa loucura que vejo representada no relógio. Me sinto o próprio coelho da Alice.  Tonto. Desorientado. E no balanço das horas tudo pode mudar... Diz a cantora oitentista no rádio. Angústia multiplicada!

Talvez a melhor maneira de lidar com o tempo seja jogar fora todos os relógios. Quebrar todos os espelhos, rasgar todos os velhos escritos. Enfim, desfazer-se de todas as setas que nos indicam o passado e as que possam apontar para o futuro. E fixarmo-nos no ponto no qual estamos. Na hora cheia, diria. Como se todos os instantes fossem meio-dia ou meia-noite ou meia-hora. Instantes que não antecedem nada, tampouco sucedem algo. Mas que apenas e tão somente são!  Agora. Presente. Incisivos instantes. Decisivos instantes. Nos quais temos que nos decidir: somos o que somos ou o que éramos ou o que fomos? Ou pior, o que deveríamos ter sido?

O tempo vai ser sempre uma questão pra mim. Um aliado e um inimigo uma força constante de inquietação e angústia. Uma causa, um efeito, uma forma de reação. Ao ser que sou. A identidade fixa dos que esperam dos outros sempre a mesma coisa. De mim, que espero algo coerente de mim. Que procuro algo reincidente em mim. O tempo será faca, navalha, a cortar o que posso ser. A deformar ou reformar o que posso ter sido, num processo que não controlo, não distingo. Um processo que me surpreende e me assusta.

O tempo será pra sempre o tempo. Com sua força transmutadora e inevitável. Será sempre o tempo no qual para ser(mos) só aceitando-o como parceiro.



Escrito por Du às 11h18
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Preciso ler mais poesia, preciso ler mais filosofia. Preciso ler mais de mim.

Ver mais as variações nos tons das palavras, nos sons das cores que despudorados invadem minha sala queimando-me os olhos, atravessando-me os ouvidos.

Preciso entender mais de mim. O que podem ser as coisas que odeio, tão poucas, e as que adoro, tantas.  Seus por quês e meus para quês?

Preciso entender os dias turbulentos como prenúncios de noites tranqüilas. E as noites turbulentas como resultado de dias insignificantes. Como pudessem ser insignificantes os dias turbulentos e as noites tranqüilas.

Aos poucos me dou conta de que de mim nada sei e por mais que busque saber, menos do que gostaria saberei. Mas, contudo, saber que se sorrio pra mim mesmo, sem mover os lábios até, ou se os rasgo numa gargalhada retumbante, meu mundo fica mais leve. As coisas em volta de mim, as dores, os medos, parecem esquecerem-se de si e, por mim, pelo meu sorriso, pacificam-se. E brilham. Invertendo suas funções na vida, desistindo de devastar meu cotidiano com fatalidades, realidades e fantasmas.

Preciso pensar mais poesia. Pensar mais filosofia. Pensar mais em mim.

Ver as condições com as quais todas as coisas se formam ou se avolumam. Valorizar as variações de tons, de sons e eus que ocupam o espaço a minha volta.

Me dar conta que de repente tudo pode mudar. De caminho, de sentido de conceito, sem necessariamente deixar de ser o que é.

Preciso entender que tudo faz sentido e é belo e poético e efêmero, exatamente no lugar que está. Do jeito que está.

Inclusive eu.

Até.



Escrito por Du às 14h25
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Extraí estes dois trechos de uma entrevista, o primeiro, e de um texto escrito especialmente para um site de fotografia, pela escritora paulista Márcia Denser, uma das minhas favoritas na literatura brasileira.  Eles falam da escrita, sua importância e força na vida e na alma daqueles que dela se utilizam como expressão. Salve Márcia. Dansemos em seu louvor, pois suas letras nos resgatam o prazer de sermos humanos, fracos, apaixonados, sexuais, salve!

Enquanto vivo eu observo a vida pessoalmente. Ela não me parece tão poderosa,  carregada de emoção e significado.

Há uma espécie de véu, um implacável campo de força como a amortecer o choque frontal da realidade.

E essa teia é produzida por mim mesma, constituído de camadas de ilusões, visões distorcidas, idéias pré-concebidas, um dédalo de percepções inúteis à flor da pele, estática mental.

Mas o momento sublime da escrita rasga o véu, me arremessa nua e em carne viva de encontro a experiência rediviva e então, sim, dessa vez em plenitude e de uma vez por todas, implodindo todo o potencial oculto da realidade, e mesmo aquela submersa, alheia a consciência, resplandece subitamente

 

(...) O que escrevo não são exatamente contos, são exercícios de captação de fragmentos da realidade. Imaginem uma câmera fotográfica na mão de uma criança. A apreensão, em primeiro plano, de detalhes insignificantes, como um dente cariado, pedaços de seios desnudos, o rendilhado rápido de um pegnoir. Uma inocência ternamente perversa a fotografar o caos e, sem querer, revelar verdades inconfessáveis. (...) Enquanto a arquitetura e as artes plásticas colocam objetos no mundo, a literatura, inversamente, (e, de certa forma, a a foto e o cinema) toma a realidade de assalto, é a obra de conquista verbal da realidade. Retira-se do mundo a realidade para devolvê-la sob a forma de ficção que antecipa o futuro.

 

Até



Escrito por Du às 20h46
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Muita coisa inda estava por vir. Era meu aniversário de 29 anos, entre amigos eu comemorava pela primeira vez com violão. Uma canção muito apropriada era dedilhada: 29, da Legião Urbana. A praça da minha infância já não era a mesma, aos amigos antigos agregavam-se novos. As antigas esperanças, aliás, naquela época, eram poucas, somávamos os desejos de felicidade utópica próprios de comemorações. Na verdade vivíamos como se o mundo fosse acabar em quinze minutos. Era assim que eu também queria a vida. Urgente, visceral, intensa. Este ainda é um dos poucos aniversários dos quais eu me lembro. Não poderia imaginar as direções que tomaria minha vida depois dos vinte e nove mas tem uma linha divisória na minha existência que demarca os acontecimentos marcantes. Como a do Equador, minha vida estaria marcada pelo rasgo dos vinte e nove, ali naquela praça. Estranhamente em processo de reconstrução, a praça, palco de tantas descobertas de um adolescente atônito com a realidade que se lhe apresentava, refletia um futuro que nem eu mesmo previa. Como se o resultado da reforma fosse imprevisto. Meus curtos horizontes se delineavam naquele espaço, que hoje, em nada me remete ao passado, mas que deve estar no imaginário de tantos outros adolescentes que como eu, quero crer, desejam muito mais para si do que o que a dura realidade pode oferecer.

As árvores, as novas, sem identidade, forçosamente lutavam para crescer e serem aceitas como substitutas dos meus antigos eucaliptos, que haviam sido retirados. Começara a alteração dos meus horizontes daqui, e eu, despercebidamente, achava que nada aconteceria. O violão tocou até tarde, naquele onze de dezembro, era um dia de semana, sei lá. Voltar atrás e procurar calendários está fora de cogitação. Pelas mãos de nem sei quem, a trilha sonora dos meus vinte e nove rolava pela madrugada. Possivelmente devo ter transado com um alguém, que também não lembro. Com certeza bebi mais do que o nível permitido, como de costume. E também, com certeza, adormeci na casa da minha infância, sem noção de que apesar de não percebermos, o tempo passa e é implacável. Aos nove, dezenove, vinte e nove, trinta e nove... 

O descaso com o poder que o tempo detém é o que faz com que ele nos submeta a atrozes surpresas. E se revele carrasco ou cúmplice. Contudo, vivia eu como se o tempo não existisse, ou fosse só números presos ao calendário que jamais me alcançariam. Só que o tempo muda a geografia das coisas e, muito depois dos vinte e nove, percebo o que ele me atribuiu, presenteou, surpreendeu.

Os tempos são outros agora e, espero entender um pouco mais a ação do tempo: “Aprendi a perdoar e a pedir perdão”.  Já é um começo.

Até.

 



Escrito por Du às 19h22
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Me incomoda um pouco o verde intenso da samambaia, parada, tensa em seu pedestal, do outro lado da sala. Parece cabelo de apresentadora de programa de TV, sempre armado, nada desarruma.

Sou daqueles que tem necessidade de uma desarrumação de tempos em tempos. Algo que promova uma incerteza quanto ao rumo que se tem. Na vida, nas coisas...

Busco coerência nas coisas estranhamente para me manter desatrelado ao constante. A figura do cego, que vive sozinho em casa, e sabe onde se encontram todas as coisas. Estende a mão e pega o controle do aparelho de som. Vira para o lago e pendura o casaco e a bengala no cabide na parede. Esta segurança as vezes invejo, as vezes me desespera. Talvez por não ser cego e ter conhecimento das muitas possibilidades que as coisas podem ter, das variações de lugar que podem ocupar.

Ter a casa arrumada faz parte da minha neurose, e me situa externamente. Enquanto me debato com a necessidade de surpresas, quebras de rotina, novidades, internamente.

Não quero pensar que vou viver mais algumas décadas, sabendo exatamente onde depositei meus amores, onde minhas dores foram penduradas. Saber que se olho para esse lado me apaixono. Para aquele repudio. Prefiro viver com a incerteza do que vou achar na gaveta, e que de lá vai saltar, e me atingir em cheio na alma, um amor, que pegar um lenço que seque lágrimas frustradas, por exemplo.

Subverter a função das coisas. Prefiro assim.

Chorar de alegria. Sorrir da dor. Sofrer pela vida. Brincar com o trágico.

Da r outros sentidos aos sentidos. Construir meu próprio conjunto de sentimentos e reações adequados as minhas incertezas, minhas loucuras, minhas neuroses.

Criar. Viver é isso para mim: uma eterna oficina de criatividade. Só ao final e que vamos perceber o que vai ser nossa construção.

A samambaia? Acho que vou tingi-la de vermelho. Ou simplesmente deixá-la onde está.

Afinal de contas, plantas não nascem no canto da sala, nós a pomos lá.

E isso já é subversão.

Até.

imagem: google imagens



Escrito por Du às 08h19
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Comer sushi é um evento. Primeiro pelo preço. Depois pela excentricidade. Vamos combinar que comida japonesa, peixe cru, arroz empapado e afins, se afastam, e muito, da cultura gastronômica brasileira.  Mas para quem experimenta e gosta é uma experiência viciante e inesquecível.

Tive meu dia de samurai, ou melhor, minha noite, depois de assistir a uma tentativa pós-moderna de reedição do romance de Romeu e Julieta, direto do Oriente Médio, com casal gay e coisa e tal, que me deixou um tanto quanto aborrecido. O amor romântico é uma tolice, tenho dito. E quase sou morto por crer assim. Certo está o Gerard Thomas que ao ser perguntado pelo Contardo Calligaris, num programa de TV que penso só eu assisto, Café Filosófico, disse que para ele, o texto de do bardo é uma história de sexo e mais nada. Achei ótimo. Mas, voltando ao sushi, talvez ainda pelo efeito do cinema e suas possibilidades de divagação, me percebi viajando entre Tel Aviv, Japão, Catete e Santa Teresa.

Nunca havia me dado conta das particularidades que aproximam a comida japonesa das minhas questões mais pessoais. As mais pessoais confessáveis, publicáveis, esclareço. Me lembro da primeira vez que encarei um sashimi, com hashi atado por elástico, já que o nervosismo, um pouco de vergonha, confesso, alteravam minha coordenação. Na verdade esse lance de saber ao certo como controlar o pauzinho japonês é muito complicado. Neste tempo eu era assim também. Com ele desatado era capaz de me enrolar e fazer de um banquete um desastre. Hoje já controlo um pouco mais.

Os sabores incomuns sempre me foram atraentes e pra quem é assim, peixe cru é perfeito. Além de outras novidades, sempre as confessáveis, lembrem-se.

Tinha prazer em contar aos meus amigos de outros tempos quantos sabores novos eu estava provando numa adolescência um pouco tardia, eu devia ter uns 23 anos, na época. Na época da comida japonesa, que fique claro. A boca ávida do papai aqui já tinha rodado muito! Experimentado muito. Algumas vezes sem nem mesmo sentir o gosto. Velhos tempos. Que os deuses o tenham.

Agora, os sabores exóticos ao gosto comum, já não me parecem tão exóticos. Comer sushi é rotineiro. Pelo menos uma vez por mês estou lá provando uma novidade e os de sempre.

Percebi que sou conservador, só nesse restaurante já são quatro anos. Para um antigo experimentador, assumir-se conservador é dolorido. Mas, o que fazer? O sou.

Isso de certo modo tem me acompanhado desde a primeira degustação até hoje. O desejo de ser freqüentador fiel, tem um nome pra isso que não consigo me lembrar... Mas é isso. Desde sempre, e isso é outra confissão, quis ser “fixo”. E vejo que por mais aventureiro que tenha sido meus caminhos sempre me levavam em direção ao seguro. Ao garantido. Por isso não experimentei – ainda - buchada de bode, por exemplo. E nem voltei ao que provara, mas não satisfizera meu paladar exigente.

O amor romântico está vencido, preciso pensar mais sobre isso, eu sei, para melhor articular minha teoria e minha defesa, mas a fidelidade aos sabores permanecem. Aos sabores escolhidos, selecionados depois de exaustivas sessões degustatórias, algumas desistências e tantas outras esquecidas.

Ao sushi e ao sashimi, frescos e adocicados. Ao beijo na boca, quente e excitante. Ao sexo, pela manhã, à tarde, à noite, sempre com amor, para não deixar de ser romântico: a eternidade. E a permanência em seus amplos sentidos.



Escrito por Du às 15h36
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Quando eu não tinha o olhar lacrimoso/ que hoje, eu trago e tenho;/quando adoçava o meu pranto e o meu sono/no bagaço de cana do engenho;/quando eu ganhava esse mundo de meu Deus/fazendo,  eu mesmo,  o meu caminho/por entre as fileiras de milho verde -  que ondeia

com saudade do verde marinho;/eu era alegre com um rio, um bicho, um bando de pardais./Como um galo...  quando havia!/Quando havia galos, noites e quintais./Mas veio tempo negro e a força fez/Comigo o mal que a força sempre faz./Não sou feliz, mas não sou mudo./Hoje eu canto muito mais!” - (Belchior)

 

Acordei antes do tempo pensando nesta canção.  Meio saudosista. Fiquei apreensivo. O que eu estava querendo me dizer, no raiar de um domingo, depois de um sonho com cachorros? Abraço, apertado, este alguém que está sempre ali, ao meu lado, nesta e em todas as horas nas quais se alteram minhas emoções.

Olho para o teto meio manchado de tinta branca mal aplicada, que um dia substituiremos, herdada, ainda, do antigo morador, e me esforço para lembrar da letra.

Ficam ressoando os versos: “Quando eu não tinha o olhar lacrimoso que hoje, eu trago e tenho; eu era alegre com um rio, um bicho, um bando de pardais; “

E nestas horas, em que o saudosismo toma conta e tenta me conduzir às pequenas coisas do passado, eu resisto. Por uma questão darwiniana, evolutiva. Hoje, I’m, em seus dois sentidos, num tempo diferente. Onde não cabe juízo de valor. Se é melhor ou pior. Se valeu a pena ou não.

Aliás, eu detesto valorar realidades. Cada coisa tem seu status, seu sentido e dentro do contexto em que a vivemos ou vivenciamos, deve ser compreendida. E não julgada.

O que realmente tem valor são as lembranças. Estas sim. São sempre fortes e necessárias, afinal, são elas que, entendidas como ‘experiências’, vão servir de norte, as próximas jornadas.

Então, ainda na cama, refaço num muito breve segundo, uma viagem aos idos dos oitenta.  A minha década, que detesto quando os supostos críticos chamam de perdida, e encontro com o garoto que, caminhava por uma estrada de saibro, empoeirada, pelas tardes quentes próprias da baixada fluminense, acompanhando a muralha de eucaliptos que cercava uma propriedade privada. O cheiro das folhas quando úmidas era ainda melhor. Inesquecível. Pensava em nada.

Imaginava outros lugares, às vezes, com uma inocência quase ridícula ao homem que me tornei.

Como o milho verde do poeta, ondeavam também, e exalavam ainda mais o aroma da minha adolescência, que permanece arquivado na minha caixa de odores.

Dou um FWW e volto para o teto do quarto, ou melhor, para minha cama. Ainda é cedo para levantar, afinal hoje é domingo.  Vou tentar dormir um pouco mais. Antes, sussurro eu te amo no ouvido do corpo que abraço.

Não sou feliz (daquela forma) mas não sou mudo!

Até.



Escrito por Du às 17h58
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Tenho um defeito confesso: nunca assisto aos filmes que compro. As vezes até tento, mas lá pela metade do DVD, já cansado de esperar por um comercial de shampoo ou creme dental, desisto e adio o final para sei lá quando.

Na verdade os filmes que gosto e com os quais mantenho uma relação estranhamente íntima, me surpreendem com re-exibições nos canais de TV e, confesso, estas surpresas são para mim um deleite. É assim com Entrevista com o Vampiro; Drácula, de Bram Stoker; A flor do meu segredo; A rosa púrpura do Cairo... muitos.

Infelizmente surpresa não é um dom de todas as pessoas e coisas. Alguns dos meus filmes favoritos jazem a minha espera nas prateleiras das locadoras, empoeirados.

Mas ainda bem que o tédio provoca um descontrole nos meus dedos que,  incontinentes, zapeiam sem parar por todos os canais de TV. Numa dessas, ontem, peguei ainda no começo, na primeira cena, um dos meus favoritos.

Acho que com esta foram cinco vezes que o assisti e ao final quis tê-lo pra mim. Foi a primeira vez que pensei nisso. Talvez estejam se esgotando as revelações que se descortinam  em cada “sessão”. Ou eu, provocado pelo medo de que as próximas sejam ainda mais reveladoras, o queira jogar num canto da estante, ao lado do Crepúsculo dos Deuses.

Mas enfim, As Horas, de Stefhen Daltry, traz em sua estrutura narrativa, personagens e diálogos algo que realmente me angustia. Isso sem falar na trinca de “monstras” que atuam.

Difícil dizer o que me perturba tanto, mas a cada vez que assisto, sutilezas no texto e na construção dos personagens me assombra.

Ontem, desesperançado diante da TV, a cena inicial, que antecipa a final, do suicídio, com o texto de despedida, me surpreendeu como vento gélido de inverno quando se abre a janela do apartamento, prenunciando as histórias de solidão, devoção, incerteza que compõem o filme.

E fui laçado pelo olhar de entrega, dependência e devoção que o pequeno Richard dedica a sua mãe, interpretada magistralmente por Juliane Moore. Olhar este que de 1953 vai se reproduzir no velho Richard,  de Ed Harris, em 2001, já alquebrado, vencido, desesperançado.

O brilho nos olhos dos dois atores, que pertencem ao personagem, parece ter sido introduzido por algum tipo de efeito especial, desses de computação gráfica, que fazem homens parar no ar, gato de mentira conversar com cachorro de verdade e coisa e tal, típicos do cinema atual.

A ânsia do pequeno Richard. A ânsia do velho Richard. Um pedido de ajuda, de socorro, algo como:  “ - O que é que eu posso fazer pra você me ver, me ver por dentro, ver o que eu sinto.”

O coitado não consegue seu objetivo mesmo mantendo o olhar por cinqüenta anos.

As pessoas, por mais que sejam próximas, enxergam primeiro o que está bem diante dos olhos. E é a isso que elas reagem e é nisso que elas baseiam seus atos. Só que tem mais, bem mais...

 Me identifico um pouco com o Richard e na verdade com os outros personagens também (Virginia Wolf, aiaiai), que já cansado de mandar sinais – um livro hermético, uma vida marginal, marcas físicas - resolve ele mesmo dar conta de suas angústias e salta para o descanso eterno. Descanso de suas buscas. Vitimado pelo seu cansaço.

O personagem, penso eu, fala disso, de um cansaço com a vida que se tem, e isso ele herda da mãe, que está presente desde sempre, e com o qual se convive, mas não se sabe o por quê.

O cansaço de ser vivo. De pulsar. Às vezes pulsar em fora de sintonia com o mundo.

Richard é poeta. É gay. É soropositivo. É genial. Mas é um ser humano cansado. Cansado de ser que ele é, ou do que ele deixou-se ser.  Se já é dureza ser quem somos, íntegros, transparentes, sinceros, quando assim o somos, imagino a dificuldade de se quem você deixou-se ser. Virginia Wolf,  Reinaldo Arenas, Sylvia Plat, Renato Russo, Ana Cristina César, Richard...  Deve ser foda.

Pode ser que a única saída deste lugar,  aonde nos colocamos e aonde as pessoas pensam que sempre estivemos e estaremos, seja um salto, um tiro, um veneno. Mas pode ser que seja um passo. Um passo em direção a outro lugar. Opção bem mais simples que artistas e poetas não compreendem, mas possível.

Eu, parafraseando Lorca, não sou poeta, nem sou homem. Sou só uma veia aberta, que sangra.

E prefiro passo a saltos.

Até.

 



Escrito por Du às 15h29
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Quarta-feira, 02:30am. Vôlei feminino. Brasil x Rússia.

Ainda não entendi por que insisto em despertar quando a maioria dorme.

Despertar do quê? Em vésperas de confrontos nunca durmo bem mesmo.

Acho que é o espírito de luta que traça planos, estratégias, ciladas visando vitória.

O fato é que, ainda hoje, depois de tantas disputas clássicas com rivais já conhecidos e outras tantas com outros nem tanto, me surpreende a  inclinação que mantenho pela derrota. As lembranças das batalhas perdidas me perseguem, parecem ser a verdadeira medalha que carrego, pesada, inconveniente.

Mas me resta uma esperança: sempre desperto pra outra peleja.

O temor de ser vencido não me vence.

E as recordações de disputas passadas, quando as solicito, surgem das trevas do meu HD mental para me encorajar mais que para assombrar.

A gente sempre espera vencer mesmo. É humano este desejo, pelo menos é o que penso. Mas as derrotas podem ser vitórias, afinal de contas, se perdemos o primeiro lugar, ganhamos o segundo. E vá lá, alguém ficou para trás, em terceiro.

Será que se trata disso mesmo, disputas? Quem vence, quem perde...

Me parece pouco – depois que passa a peleja, claro.

Acredito no prazer de disputar como uma possibilidade de avanço, troca de lugar. E se por algum motivo não alcançamos este status de novo habitante de um outro lugar, ao menos tentamos e nos aproximamos dele.

Além do que, se viver fosse um campeonato, valendo colocações, premiações, etc, a repetição dos vencedores seria muito comum, assim como a frustração dos que “perdem”.

Viver não é bem isso, acho. Talvez seja difícil, uma guerra, às vezes. Não é uma luta entre equipes ou homem a homem, definitivamente. Mas uma busca individual por um lugar no pódio dos que resistem e acordam de madrugada (ou nem dormem) para enfrentar seus adversários, venham de onde vierem.

Vou despertar durante outras madrugadas. Perderei o sono, mas ganharei o jogo.

Ah! Lá pelas 4:00, o Brasil perdeu. Mas lutou até o 5º set.

Até.

imagem: volei.fotopages.com



Escrito por Du às 15h33
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Definindo espaços.

Dissipar : 1.Espalhar, dispersar. 2. Pôr fim a. 3. Dilapidar. 4. Dispersar-se; evaporar-se. 5. Desaparecer.

Está assim no Aurélio - auxílio sempre presente nas horas de incerteza. Representa bem as ricas variações e interpretações, as vezes lógicas, as vezes loucas, que nos proporciona nossa língua oficial.

Mas não posso deixar de vagar: dissipando ar;  disse p’a moi, desci pra noir...

Brincadeiras com o nome desse sítio que a fonética nos permite se o pensamento criativo acompanhar.

E lá vamos nós por caminhos desvendados pela língua, pela palavra, pela voz interna, abstrata, porém contundente, que se avoluma e explode em forma de sons roubados de formas pré-definidas.

A voz que grita no peito trancado, nublado como o dia cinza desta quase tarde, meio noite, de terça-feira. Uma terça freira.  Que encobre a beleza do corpo da minha cidade. Que me priva dos prazeres das cores do sol, do céu, das formas lúdicas das nuvens...

Mas que não cala grunhido da fera que meu peito abriga.

Lá, no peito, em cada canto um som, uma cor, uma possibilidade.

Em cada espaço uma vaga para o sentimento que tímido se espreita em busca de habitat.

No meu peito (e no seu também) caberão tantos sentimentos quanto vierem. Por uma questão de angústia. De necessidade. De fome.

Preciso de muitas formas de sentir para pensar, para escrever, para me revelar. E em nada vale lugares vazios no peito. Espaços desocupados são inúteis e improdutivos.

Cada cor tem seu tempo, hoje é dia de cinza, mas amanhã poderá ser tudo carmim. Pra mim.

Acho que é assim: Cada coisa deve ser colocada em seu lugar. E o lugar é aquele que a elas concedemos.

Abro espaço aqui para deixar minhas divagações. Meus pensamentos, dúvidas, medos, talvez. Mas com sentimento certamente.

E que não se dissipem as dores, os amores, as palavras. Que o ar os conduza à lugares mais altos e acessíveis.

Até.

210807

 

imagem: Leonilson.



Escrito por Du às 15h39
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